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Dança é arte?

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Desde a origem das sociedades uma das formas do homem se afirmar como membro de uma comunidade que o transcende é através da dança. A história nos mostra que o homem dançou em diversos momentos da sua existência, em diferentes comemorações. No nascimento e na morte, na guerra e na paz, na semeadura e na colheita...

Esteticamente a dança pode ser dita como a arte mais antiga, expressando as emoções sem usar a palavra. Bastava à própria dança para revelar tudo que queria.

"A dança torna visível o invisível". (Paul Klee)

Na bíblia, mais precisamente no antigo testamento, encontramos inúmeras citações sobre dança como expressão de louvor ao Senhor. Em Samuel podemos observar David dançando e cantando alegremente na chegada da Arca a Jerusalém. A dança sempre mostra um Deus presente, tornando o homem mais forte, mais feliz.

Observamos então que nas diversas formas de comemoração e adoração a dança se faz presente, porém a dança sofreu e ainda sofre preconceitos estabelecidos em outra época. Qual será o motivo? Vamos voltar um pouco no tempo e acompanhar os fatos...

O filósofo Platão (428 – 346 a.C.) na sua crença, na sua idéia dualista, criou dois mundos. O Topus Uranus ou o mundo das idéias perfeitas, o céu, o mundo espiritual, habitado apenas pelo SER. Criou também o Mundo dos Fenômenos ou das cópias imperfeitas, a Terra, a cópia do Tópus Uranus, habitado pelo NÃO-SER.

Dentro deste pensamento filosófico, Platão diz que a música é a única arte que não copia, é a mais soberana de todas as artes. A música como é algo imaterial, está mais próxima a alma, ao SER, a perfeição. O corpo dá-se equívocos, erros, problemas estando próximo ao NÃO-SER. A dança, portanto sendo um fazer corporal está classificada a não-verdade, ao equívoco, ao NÃO-SER.

No livro A Dança, MENDES (1985, p.14) nos explica um pouco as idéias de Platão, quando comenta:

"Platão (428-347 a. C.), em suas Leis, distinguia a dança popular da que denominava "dança nobre", e apenas a esta concedia sua aprovação. Considerava não adequada aos cidadãos as danças de natureza báquica e de caráter lascivo. Não reputava como arte as danças de caráter guerreiro, venatório, propiciatório de chuvas, fertilidade etc., pois achava que a arte precisava conter um elemento de imitação que não se limitasse a copiar um fato, mas sim induzir o espectador a uma experiência; era preciso reproduzir, representar uma emoção".

Já Aristóteles, discípulo de Platão, mesmo conservando as idéias do mestre e o mundo dos fenômenos, traz as idéias perfeitas para dentro de nós. Considerava os diferentes meios de criação artística produzida pelo homem além de que, se o artista tiver como inspiração o "Belo", ele traz essa idéia para suas obras. Na arte aristotélica o corpo era tão idealizado, que não existia em lugar nenhum.

Observando os primeiros séculos do Cristianismo, a dança figurando na sua liturgia como forma "nobre" teve grande importância para os cristãos nas celebrações e ainda podemos ver os resquícios dançantes nas missas romanas. Já as danças populares foram combatidas pelo conteúdo pagão desde o século II.

"O Cristianismo é um Platonismo para o povo". (Nietzsche)

No Cristianismo então tínhamos a "Escolástica Medieval" que era uma linha filosófica que atendia as necessidades da fé, fazendo que o corpo passasse por privações, dores, anulando todo e qualquer prazer do corpo. A Escolástica Medieval então se apóia de pensamentos platônicos: "Todo fazer corporal é sempre o lugar da não-verdade, do falso, do equívoco".

Sendo assim, o Cristianismo que no início tinha dança em seus rituais agora a bania para não alterar o estado de consciência, afinal a dança é prazer do corpo e a dor corporal é o passaporte para a sublimação.

Muitos séculos se passaram, vieram diversos movimentos artísticos, o Renascimento, o Romantismo, o Expressionismo dentre outros e a dança sempre esteve oscilando, ora com poder, ora não. Cresce e recai...

Trazemos marcas dentro de nós que não se apagam em algumas reencarnações. Embora muitos séculos tenham se passado, muitos movimentos de arte tenham surgido, ainda temos as chagas abertas de uma época onde a dança era sinônimo de pecado, de prostituição sofisticada, de divertimento da burguesia, onde dançarinos viviam miseravelmente fugindo da Igreja que os condenava, que não via a dança como arte e na verdade até hoje não sabemos se é considerada...

Pesquisando sobre este assunto, os argumentos são fortes atacando ou defendendo a dança como arte e o mais interessante é que encontramos muitos universitários de dança leigos no assunto, que nem sabem direito o que é dança ou o que arte. Não os condeno, o assunto é polêmico mesmo e infelizmente não existe preparo adequado na área... basta ver quando buscamos na internet o título dança associado com arte, as imagens e vídeos que aparecem... será que isso é arte? Será que também estamos agindo de forma preconceituosa?

Como Dançarinos, bailarinos e educadores da dança, vivemos muito nesta busca, pelo reconhecimento de nossa "arte", mesmo que não seja reconhecida por todos, mesmo que muitas vezes tenhamos dúvidas... sentimos esse prazer que a dança nos proporciona e sabemos o que ela significa para cada um de nós, afinal lutamos para chegar até aqui, lutamos por um mesmo ideal e tendo a certeza que fiz a escolha certa, prefiro ficar com Nietzsche in Garaudy (1980, p.52) quando diz:

"... a dança é a única arte em que o próprio artista se torna obra de arte e seu papel mais importante: desenvolver uma atividade que não é outra senão a própria vida, porém mais intensa, mais despojada, mais significativa".

A dança produz à poética, isto é o que diferencia de um simples movimento do corpo, isto é o prazer estético e todo homem tem necessidade de experiência estética, mas são diferentes, são particulares. Podemos aprender a gostar, aprender a ter a relação com a experiência estética, mas não hierarquizar, pois ela pode se tornar um elemento de captura de poder. O problema da estética é achar que tem que ter um modo próprio de sentir. Estética é a natureza do prazer, está ligada a cultura e a cultura está ligada a arte.

Para finalizar gostaria que cada um refletisse o que é arte e de que forma considera a arte como dança. Será que toda dança é arte? Como entender e como explicar isso aos nossos alunos.

Fechamos então com as palavras de Garaudy (1980,p.92): "A arte não existe para ser "compreendida", isto é, reduzida a conceitos e palavras, mas para ser vivida". E ainda in Garaudy (1980, p. 75) encontramos as belíssimas palavras de Ruth Saint-Denis quando se voltou para o Oriente: "A maior função da dança, é a de ajudar o homem a formar um conceito mais nobre de si próprio".

Que Jesus possa nos iluminar diante deste trabalho, pra que possamos desenvolver uma maior conscientização daqueles que se propuserem dele fazer parte, educando e reeducando seus hábitos corporais de forma prazerosa, através da linguagem da Dança, buscando novos caminhos de expressão, prevalecendo a liberdade do autoconhecimento, rompendo o dualismo corpo/mente e se fortalecendo como ser humano mais feliz e consciente.

Mariangela Damiani Gonçales (RJ) - Professora de Artes Visuais e Dança

 

Referência Bibliográfica:

GARAUDY, Roger. Dançar a vida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

MENDES, Mirian Garcia. A Dança. São Paulo: Ática, 1985.

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